4. NÃO ACREDITEIS EM TODOS OS ESPÍRITOS
 

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Diz o evangelho: “Caríssimos, não acrediteis em todos os Espíritos, mas provai se os Espíritos são de Deus, porque são muitos os falsos profetas, que se levantaram no mundo”. (João, Epístola I, cap. IV: 1)

Essa é uma orientação segura e verdadeira, que se seguirmos não correremos o problema de aceitar como presença sagrada, os Espíritos de toda ordem, somente por serem Espíritos. Mormente na fenomenologia mediúnica umbandista, os médiuns que não estão acostumados a se doutrinarem evangelicamente, correrão um sério risco de terem como guias espirituais Espíritos mal intencionados, ou galhofeiros, ou ignorantes, ou aficionados, ou brincalhões, ou tendencionistas, ou orgulhosos, etc. Como pode esse tipo de Espíritos serem os Espíritos Santos de Deus, os mensageiros da Espiritualidade Maior? Como poderão nos bem orientar na senda do bem? Cremos também, que os Espíritos militantes ostensivamente na mediunidade umbandista em atendimentos fraternos não sejam altamente evoluídos e muito menos Espíritos de luz vindo das esferas siderais. A maioria são, com certeza, Espíritos com luz, seres que tiveram suas evoluções humanistas como nós, e hoje, estão na espiritualidade, e por amor, voltam para nos orientar, nos auxiliar, ou seja, cuidar nós, pois são nossos ancestrais consangüíneos, espirituais ou mesmo por afinidades e estão ligados a nós de uma ou outra forma.

Tornando a relembrar: Pai João da Caridade, nosso mentor, nos disse uma vez: “Filho; eu não sou um Espírito de luz; quem dera; Espírito de luz é o Arcanjo Miguel, o Arcanjo, Gabriel, o Arcanjo Rafael, o Anjo Ismael; eu só tão somente um Espírito humano com luz, labutando na seara umbandista, a fim de aprender um pouco mais com todos vocês. Só isso. Afinal, a ordem nos foi passada pelo Senhor Caboclo das Sete Encruzilhadas: “De quem sabe aprenderemos; aos que nada sabem ensinaremos e a ninguém negaremos auxílio; essa é a vontade do Pai”.

Agora, um Espírito que se intitula Guia Espiritual, somente deve ser aceito como tal, se pautar toda sua doutrina, orientações e vivencias, nas orientações calcadas nos ensinamentos de Jesus. Guia Espiritual não pauta suas orientações na materialidade ilusória; Guia Espiritual não tem vaidade; Guia Espiritual não tem vícios; Guia Espiritual liberta, ama, perdoa, orienta, evangeliza.

Nós, médiuns umbandistas, devemos nos precaver contra uma classe perigosa de Espíritos; “... É a dos Espíritos enganadores, hipócritas, orgulhosos e pseudo-sábios, que passaram da Terra para a erraticidade e se disfarçam com nomes veneráveis, para procurar, através da máscara que usam, tornar aceitáveis as suas idéias, freqüentemente as mais bizarras e absurdas. Antes que as relações mediúnicas fossem conhecidas, eles exerciam a sua ação de maneira mais ostensiva, pela inspiração, pela mediunidade inconsciente, auditiva ou de incorporação...” (O Evangelho Segundo o Espiritismo - Capítulo 21).

A Umbanda nos oferece meios eficientes para reconhecer a presença de Espíritos menos esclarecidos manifestados num médium; características sempre morais e jamais materiais.

Um bom Espírito se reconhece pelos bons frutos que dele emanam – “Reconhece-se à árvore pelos seus frutos; uma boa árvore não pode dar maus frutos, e uma árvore má, não pode dar bons frutos” – Julgam-se os Espíritos pela qualidade de suas obras, como a árvore pela qualidade de seus frutos.

Vamos as preciosas orientações colhidas em o “Livro dos Médiuns”, obra impar para a educação mediúnica; leitura e estudo obrigatório para todos os médiuns umbandistas:

 

RECONHECENDO AS QUALIDADES DOS ESPÍRITOS

Como Distinguir os Espíritos Bons e Maus

262. Se a perfeita identificação dos Espíritos é, em muitos casos, uma questão secundária, sem importância, não se dá o mesmo com a distinção entre os Espíritos bons e maus. Sua individualidade pode ser-nos indiferente, mas a sua qualidade jamais. Em todas as comunicações instrutivas é sobre esse ponto que devemos concentrar nossa atenção, pois só ele pode nos dar a medida da confiança que podemos ter no Espírito manifestante, seja qual for o nome com que se apresente. O Espírito que se manifesta é bom ou mau? A que grau da escala espírita pertence? Essa a questão capital. (Ver Escala Espírita no item 100 de O Livro dos Espíritos)

263. Julgamos os Espíritos, já o dissemos, pela linguagem, como julgamos os homens. Suponhamos que um homem receba vinte cartas de pessoas que não conhece. Pelo estilo, pelas idéias, por numerosos indícios julgará quais são as instruídas e quais as ignorantes, educadas ou sem educação, profundas, frívolas, orgulhosas, sérias, levianas, sentimentais, etc. Acontece o mesmo com os Espíritos. Devem considerá-los como correspondentes que nunca vimos e perguntar o que pensaríamos da cultura e do caráter de um homem que dissesse ou escrevesse aquelas coisas. Podemos tomar como regra invariável e sem exceção que a linguagem dos Espíritos corresponde sempre ao seu grau de elevação. Os Espíritos realmente superiores não se limitam apenas a dizer boas coisas, mas as dizem em termos que excluem absolutamente qualquer trivialidade. Por melhores que sejam essas coisas, se forem manchadas por única expressão de baixeza temos um sinal indubitável de inferioridade. E com mais forte razão se o conjunto da comunicação ferir as conveniências por sua grosseria. A linguagem revela sempre a sua origem, seja pelo pensamento ou pela forma. Assim, mesmo que um Espírito quisesse enganar-nos com a sua pretensa superioridade, bastaria conversarmos algum tempo com ele para o julgarmos.

264. A bondade e a afabilidade são também atributos essenciais dos Espíritos depurados. Eles não alimentam ódio nem para com os homens nem para com os demais Espíritos. Lamentam as fraquezas e criticam os erros, mas sempre com moderação, sem amarguras nem animosidades. Se admitirmos que os Espíritos verdadeiramente bons só podem querer o bem e dizer boas coisas, concluiremos que tudo o que, na linguagem dos Espíritos, denote falta de bondade e afabilidade não pode provir de um Espírito bom.

265. A inteligência está longe de ser um sinal seguro de superioridade, porque a inteligência e a moral nem sempre andam juntas. Um Espírito pode ser bom, afável e ter conhecimentos limitados, enquanto um Espírito inteligente e instruído pode ser moralmente bastante inferior. (Atenção para a advertência final de que isso não constitui regra. Certas pessoas entendem que só devemos crer nos Espíritos ignorantes ou que se fazem passar por tal. Isso é ir de um extremo ao outro. Os Espíritos realmente elevados são inteligentes e bons, realizaram ao mesmo tempo a evolução intelectual e moral, como se depreende da própria regra de identificação de sua elevação pela linguagem. (N. do T.)). Geralmente se pensa que interrogando o Espírito de um homem que foi sábio na Terra, em certa especialidade, obtém-se a verdade com mais segurança. Isso é lógico, e não obstante nem sempre é certo. A experiência demonstra que os sábios, tanto quanto os outros homens, sobretudo os que deixaram a Terra há pouco, estão ainda sob o domínio dos preconceitos da vida corpórea, não se livrando imediatamente do Espírito de sistema. Pode assim acontecer que, influenciados pelas idéias que alimentaram em vida e que lhes deram a glória, vejam com menos clareza do que supomos. Não damos este princípio como regra. Longe disso. Advertimos apenas que isso acontece e que, por conseguinte, sua sabedoria humana nem sempre é uma garantia de sua infalibilidade como Espíritos.

266. Submetendo-se todas as comunicações a rigoroso exame, sondando e analisando suas idéias e expressões, como se faz ao julgar uma obra literária e rejeitando sem hesitação tudo o que for contrário à lógica e ao bom senso, tudo o que desmente o caráter do Espírito que se pensa estar manifestando, consegue-se desencorajar os Espíritos mistificadores que acabam por se afastar, desde que se convençam de que não podem nos enganar. Repetimos que este é o único meio, mas é infalível porque não existe comunicação má que resista a uma crítica rigorosa. Os Espíritos bons jamais se ofendem, pois eles mesmos nos aconselham a proceder assim e nada têm a temer do exame. Somente os maus se melindram e procuram dissuadir-nos, porque têm tudo a perder. E por essa mesma atitude provam o que são. Eis o conselho dado por São Luís a respeito:

“Por mais legítima confiança que vos inspirem os Espíritos dirigentes de vossos trabalhos, há uma recomendação que nunca seria demais repetir e que deveis ter sempre em mente ao vos entregardes aos estudos: a de pesar e analisar, submetendo ao mais rigoroso controle da razão todas as comunicações que receberdes; a de não negligenciar, desde que algo vos pareça suspeito, duvidoso ou obscuro, de pedir as explicações necessárias para formar a vossa opinião”.


267. Podemos resumir os meios de reconhecer a qualidade dos Espíritos nos seguintes princípios:

  1. 1. Não há outro critério, senão o bom-senso, para se aquilatar do valor dos Espíritos. Absurda será qualquer fórmula que eles próprios dêem para esse efeito e não poderá provir de Espíritos superiores.
  1. 2. Apreciam-se os Espíritos pela linguagem de que usam e pelas suas ações. Estas se traduzem pelos sentimentos que eles inspiram e pelos conselhos que dão.
  1. 3. Admitido que os bons Espíritos só podem dizer e fazer o bem, de um bom Espírito não pode provir o que tenda para o mal.
  1. 4. Os Espíritos superiores usam sempre de uma linguagem digna, lie, elevada, sem eiva de trivialidade; tudo dizem com simplicidade e modéstia, jamais se vangloriam, nem se jactam de seu saber, ou da posição que ocupam entre os outros. A dos Espíritos inferiores ou vulgares sempre algo refletem das paixões humanas. Toda expressão que denote baixeza, pretensão, arrogância, fanfarronice, acrimônia, é indício característico de inferioridade e de embuste, se o Espírito se apresenta com um nome respeitável e venerado. (nota do autor: aqui, o mais comumente acontecer é a interferência anímica do médium, que expressa-se, aleatoriamente, da sua forma particular)
  1. 5. Não se deve julgar da qualidade do Espírito pela forma material, nem pela correção do estilo. É preciso sondar-lhe o íntimo, analisar-lhe as palavras, pesá-las friamente, maduramente e sem prevenção. Qualquer ofensa à lógica, à razão e à ponderação não pode deixar dúvida sobre a sua procedência, seja qual for o nome com que se ostente o Espírito.
  1. 6. A linguagem dos Espíritos elevados é sempre idêntica, senão quanto à forma, pelo menos quanto ao fundo. Os pensamentos são os mesmos, em qualquer tempo e em todo lugar. Podem ser mais ou menos desenvolvidos, conforme as circunstâncias, as necessidades e as faculdades que encontrem para se comunicar; porém, jamais serão contraditórios. Se duas comunicações, firmadas pelo mesmo nome, se mostram em contradição, uma das duas é evidentemente apócrifa e a verdadeira será aquela em que nada desminta o conhecido caráter da personagem. Sobre duas comunicações assinadas, por exemplo, com o nome de São Vicente de Paulo, uma das quais propendendo para a união e a caridade e a outra tendendo para a discórdia, nenhuma pessoa sensata poderá equivocar-se.
  1. 7. Os bons Espíritos só dizem o que sabem; calam-se ou confessam a sua ignorância sobre o que não sabem. Os maus falam de tudo com desassombro, sem se preocuparem com a verdade. Toda heresia científica notória, todo princípio que choque o bom-senso, aponta a fraude, desde que o Espírito se dê por ser um Espírito esclarecido.
  1. 8. Reconhecem-se ainda os Espíritos levianos, pela facilidade com que predizem o futuro e precisam fatos materiais de que não nos é dado ter conhecimento. Os bons Espíritos fazem que as coisas futuras sejam pressentidas, quando esse pressentimento convenha; nunca, porém, determinam datas. A previsão de qualquer acontecimento para uma época determinada é indício de mistificação.
  1. 9. Os Espíritos superiores se exprimem com simplicidade, sem prolixidade. Tem o estilo conciso, sem exclusão da poesia das idéias e das expressões, claro, inteligível a todos, sem demandar esforço para ser compreendido. Têm a arte de dizer muitas coisas em poucas palavras, porque cada palavra é empregada com exatidão. Os Espíritos inferiores, ou falsos sábios, ocultam sob o empolamento, ou a ênfase, o vazio de suas idéias. Usam de uma linguagem pretensiosa, ridícula, ou obscura, à força de quererem pareça profunda.

10. Os bons Espíritos nunca ordenam; não se impõem, aconselham e, se não são escutados, retiram-se. Os maus são imperiosos; dão ordens, querem ser obedecidos e não se afastam, haja o que houver. Todo Espírito que impõe trai a sua inferioridade. São exclusivistas e absolutos em suas opiniões; pretendem ter o privilégio da verdade. Exigem crença cega e jamais apelam para a razão, por saberem que a razão os desmascararia.

11. Os bons Espíritos não lisonjeiam; aprovam o bem feito, mas sempre com reserva. Os maus prodigalizam exagerados elogios, estimulam o orgulho e a vaidade, embora pregando a humildade, e procuram exaltar a importância pessoal daqueles a quem desejam captar.

12. Os Espíritos superiores desprezam, em tudo, as puerilidades da forma. Só os Espíritos vulgares ligam importância a particularidades mesquinhas, incompatíveis com idéias verdadeiramente elevadas. Toda prescrição meticulosa é sinal certo de inferioridade e de fraude, da parte de um Espírito que tome um nome imponente.

13. Deve-se desconfiar dos nomes singulares e ridículos, que alguns Espíritos adotam, quando querem impor-se à credulidade; fora soberanamente absurdo tomar a sério semelhantes nomes.

14. Deve-se igualmente desconfiar dos Espíritos que com muita facilidade se apresentam, dando nomes extremamente venerados, e não lhes aceitar o que digam, senão com muita reserva. Aí, sobretudo, é que uma verificação severa se faz indispensável, porquanto isso não passa muitas vezes de uma máscara que eles tomam, para dar a crer que se acham em relações íntimas com os Espíritos excelsos.  Por esse meio, lisonjeiam a vaidade do médium e dela se aproveitam freqüentemente para induzi-lo a atitudes lamentáveis e ridículas.

15. Os bons Espíritos são muito escrupulosos no tocante às atitudes que hajam aconselhar. Elas, qualquer que seja o caso, nunca deixam de objetivar um fim sério e eminentemente útil. Devem, pois, ter-se por suspeitas todas as que não apresentam este caráter, ou sejam condenáveis perante a razão, e cumpre refletir maduramente antes de tomá-las, a fim de evitarem-se mistificações desagradáveis.

16. Também se reconhecem os bons Espíritos pela prudente reserva que guardam sobre todos os assuntos que possam trazer comprometimento. Repugna-lhes desvendar o mal, enquanto que aos Espíritos levianos, ou malfazejos apraz pô-lo em evidência. Ao passo que os bons procuram atenuar os erros e pregam a indulgência, os maus os exageram e sopram a cizânia, por meio de insinuações pérfidas.

17. Os bons Espíritos só prescrevem o bem. Máxima nenhuma, nenhum conselho, que se não conformem estritamente com a pura caridade evangélica, podem ser obra de bons Espíritos.

18. Jamais os bons Espíritos aconselham senão o que seja perfeitamente racional. Qualquer recomendação que se afaste da linha reta do bom-senso, ou das leis imutáveis da Natureza, denuncia um Espírito atrasado e, portanto, pouco merecedor de confiança.

19. Os Espíritos maus, ou simplesmente imperfeitos, ainda se traem por indícios materiais, a cujo respeito ninguém se pode enganar. A ação deles sobre o médium é às vezes violenta e provoca movimentos bruscos e intermitentes, uma agitação febril e convulsiva, que destoa da calma e da doçura dos bons Espíritos.

20. Muitas vezes, os Espíritos imperfeitos se aproveitam dos meios de que dispõem, de comunicar-se, para dar conselhos pérfidos. Excitam a desconfiança e a animosidade contra os que lhes são antipáticos. Especialmente os que lhes podem desmascarar as imposturas são objeto da maior animadversão da parte deles. Alvejam os homens fracos, para os induzir ao mal. Empregando alternativamente, para melhor convencê-los, os sofismas, os sarcasmos, as injúrias e até demonstrações materiais do poder oculto de que dispõem, se empenham em desviá-los da senda da verdade.

21. Os Espíritos dos que na Terra tiveram uma única preocupação, material ou moral, se se não desprenderam da influência da matéria, continuam sob o império das idéias terrenas e trazem consigo uma parte dos preconceitos, das predileções e mesmo das manias que tinham neste mundo. Fácil é isso de reconhecer-se pela linguagem de que se servem.

22. Os conhecimentos de que alguns Espíritos se enfeitam, às vezes, com uma espécie de ostentação, não constituem sinal da superioridade deles. A inalterável pureza dos sentimentos morais é, a esse respeito, a verdadeira pedra de toque.

23. Não basta se interrogue um Espírito para conhecer-se a verdade. Precisamos, antes de tudo, saber a quem nos dirigimos; porquanto, os Espíritos inferiores, ignorantes que são, tratam frivolamente das questões mais sérias. Também não basta que um Espírito tenha sido na Terra um grande homem, para que, no mundo espírita, se ache de posse da soberana ciência. Só a virtude pode, purificando-o, aproximá-lo de Deus e dilatar-lhe os conhecimentos.

24. Da parte dos Espíritos superiores, o gracejo é muitas vezes fino e vivo, nunca, porém, trivial. Nos Espíritos zombadores, quando não são grosseiros, a sátira mordaz é, não raro, muito apropositada.

25. Estudando-se cuidadosamente o caráter dos Espíritos que se apresentam, sobretudo do ponto de vista moral, reconhecem-se-lhes a natureza e o grau de confiança que devem merecer. O bom-senso não poderia enganar.

26. Para julgar os Espíritos, como para julgar os homens, é preciso, primeiro, que cada um saiba julgar-se a si mesmo. Muita gente há, infelizmente, que toma suas próprias opiniões pessoais como paradigma exclusivo do bom e do mau, do verdadeiro e do falso; tudo o que lhes contradiga a maneira de ver, a suas idéias e ao sistema que conceberam, ou adotaram, lhes parece mau. A semelhante gente evidentemente falta a qualidade primacial para uma apreciação sã: a retidão do juízo. Disso, porém, nem suspeitam. E o defeito sobre que mais se iludem os homens.

Todas estas instruções decorrem da experiência e dos ensinos dos Espíritos.

(O LIVRO DOS MÉDIUNS – 62a ed. – Allan Kardec – GUIA DOS MÉDIUNS E DOS EVOCADORES)


OS ESPÍRITOS NÃO RESOLVEM SEUS PROBLEMAS

Muita gente procura o Terreiro em busca de uma conversa direta com os Guias Espirituais. Talvez acreditem que, se tiverem oportunidade de conversar, chorar suas mágoas e defender suas idéias de auto-piedade, os Espíritos se mobilizarão para auxiliá-los e destrinchar suas dificuldades com toda a urgência e facilidade.

Meu Deus, como muitos amigos estão equivocados! Espírito nenhum resolve problemas de ninguém. Esse definitivamente não é o objetivo nem o papel dos Espíritos, meu filho. Se porventura você está em busca de uma solução simples e repentina para seus dramas e desafios, saiba que os Espíritos desconhecem quimera capaz de cumprir esse intento.

Na Umbanda, não se traz o amor de volta; ensina-se a amar mais e valorizar a vida, os sentimentos e as emoções, sem pretender controlar os sentimentos alheios ou transformar o outro em fantoche de nossas emoções desajustadas.

Os Espíritos não estão aí para “desmanchar trabalhos” ou feitiçarias; é dever de cada um renovar os próprios pensamentos, procurar auxílio terapêutico para educar as emoções e aprender a viver com maior qualidade.

Até o momento, não encontramos uma varinha mágica ou uma lâmpada maravilhosa com um gênio que possa satisfazer anseios e desejos, resolvendo as questões de meus filhos. O máximo que podemos fazer é apontar certos caminhos e incentivar meus filhos (as) a caminhar e desenvolver, seguindo a rota do amor.

Não adianta falar com as entidades e os Guias ou procurar o auxílio dos Orixás, como muitos acreditam, pois tanto a solução como a gênese de todos os problemas está dentro de você, meu filho. Ao menos na Umbanda, a função dos Espíritos é maior do que satisfazer caprichos e necessidades imediatas daqueles que concentram sua visão nas coisas do mundo. Não podemos perder nosso tempo com lamentações intermináveis nem com pranto que não produza renovação. Nosso campo de trabalho é a intimidade do ser humano, e a cientização de sua capacidade de trabalhar e investir no lado bom de todas as coisas. Nada mais.

Tem gente por aí se deixando levar pelas aparências de espiritualidade. A grande multidão ainda não despertou para as verdades espirituais e acha-se com os sentidos embriagados e as crenças arraigadas em formas mesquinhas e irreais de viver a vida espiritual. Persegue soluções que lhe sejam favoráveis, e, em geral, tais soluções dizem respeito a questões emocionais ou materiais que meus filhos não se sentiram capazes de superar. Ah! Como se enganam quanto à realidade do Espírito.

O aprendizado da vida é longo, amplo e exige um esforço mental de tais proporções que não torna fácil romper com os velhos hábitos de barganhas espirituais aprendidos com as religiões do passado.

Fazem-se promessas, cumprem-se rituais na esperança de que os Espíritos ou Deus concedam-lhes um favor qualquer em troca de seus esforços externos, que presumem sobrepor-se aos valores internos. Pensamentos assim resultam de uma educação religiosa deficiente e advêm de hábitos seculares que perduram nos dias atuais e carecem de uma análise mais profunda.

Os indivíduos que agem com base nessas premissas evitam reconhecer sua responsabilidade nos acontecimentos que os atingem e pensam enganar a Deus com seu jeito leviano e irresponsável de tratar as questões espirituais. Fatalmente se decepcionam ao constatar que aquilo que queriam não se realizou e que as focas sublimes da vida não se dobraram aos seus caprichos pessoais.

Os problemas apresentados pela vida têm endereço certo, e não há como transferi-los para os Espíritos resolverem. Se determinada luta ou dificuldade chega até você, compete a você vencê-la.

Na sede de se livrar do processo educativo ministrado pela vida, meus filhos esperam que, os Espíritos, possam  isentá-los de seus desafios. Isso é irreal. Não detém o poder de transferir de endereço a receita de reeducação que vem para cada um.

Nenhum Espírito minimamente esclarecido poderá prometer esse tipo de coisa sem comprometer o aprendizado individual. Foram chamados pelo Pai para auxiliar meus filhos apontando o caminho ou a direção mais provável para alcançarem êxito na construção de sua felicidade.

Vejam como exemplo a atuação do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo. Mesmo matando a sede e a fome de multidões, ele não arranjou emprego para ninguém. Curou e restabeleceu a saúde de muitos que nele acreditaram, mas não libertou ninguém das conseqüências de seus atos e escolhas. Sabendo das dificuldades sociais da época, não tentou resolver questões que somente poderiam ser transpostas com o tempo e o amadurecimento daquele povo. Em momento algum o vimos a prescrever fórmulas para dar fim a desavenças de ordem familiar, socioeconômica nem tampouco emocional, recomendando meios de trazer o marido de volta ou fazer a pessoa amada retornar aos braços de quem deseja. Uma vez que ele é o Senhor de todos os Espíritos e não promoveu coisas nesse nível, como podemos nós, seus seguidores, sequer cogitar realizá-las?

O que podemos deduzir das atitudes de Nosso Senhor, meus filhos, é que, se ele não se dispôs a realizar tais demandas, que na época certamente existiam, é porque a natureza de seu trabalho era outra.

Mesmo debelando os males, prestando o socorro que podia, ele não eximiu a população de enfrentar seus desafios. Quem recebeu o pão voltou a ter fome e inevitavelmente teve de trabalhar para suprir as próprias necessidades; quem foi curado teve de aprender a valorizar a própria vida, pois outras enfermidades viriam mais tarde; quem Jesus ressuscitou dos mortos desencarnou mais adiante. Em suma, o processo de reeducação a que conduzem os embates da vida é tarefa de cada um. Cristo Nosso Senhor apenas indicou a direção, mas cabe a cada seguidor palmilhar o caminho com suas próprias pernas, avançando com passos seguros e resolutos em seu aprendizado.

Através desse raciocínio, meu filho, você poderá compreender a razão pela qual não há proveito em recorrer aos Espíritos para livrá-lo do sofrimento ou isentá-lo de dificuldades. Esse é o caminho do crescimento na Terra, e não há como fugir às próprias responsabilidades ou transferir o destino das tribulações. A dívida acorda sempre com o devedor, não há como se furtar a essa realidade.

(Capítulo do livro “Alforria” – Pai João, da Casa dos Espíritos Editora, com adaptações do autor)

Atentem para essa orientação do Espírito de Ramatis, dizendo sobre os “Pais de Segredo”, que nada mais seriam que os Guias Espirituais comandantes da Religião de Umbanda, os Caboclos da Mata e os Pretos-Velhos:

PERGUNTA: É verdade, que Espíritos de elevado quilate espiritual também participam das falanges de Umbanda, habilmente disfarçados sob a forma de “cascões” de pretos, índios e caboclos?

RAMATÍS: Realmente, Espíritos de elevada estirpe sideral operam nas atividades de Umbanda; alguns deles foram até canonizados pela Igreja Católica e outros são conhecidos nas próprias sessões do espiritismo cardecista. Embora sejam entidades de luz, disfarçam-se sob o invólucro de “cascões perispirituais” evocados de sua configuração no passado, e misturam-se às falanges primitivas de Umbanda, habituando os seus comandados à prática do Bem. Alguns Espíritos superiores, mais audaciosos e heróicos, chegam a penetrar nos agrupamentos de quimbandeiros, minando os processos da magia negra e semeando bons propósitos, embora cumprindo todas as exigências e superstições próprias da Lei da Magia Africana.

A sua atuação, à guisa de “pontas de lança” comandadas pelo mundo angélico, enfraquece as hostes malfeitoras dos magos negros, num trabalho perigoso, pertinaz e exaustivo, que resulta em verdadeira “sabotagem” a favor do Bem!

PERGUNTA: Que se deve entender por “cascões” usados pelos Espíritos de luz no seio da Umbanda?  Essa conceituação não é mais própria da Teosofia?

(Consoante as obras mediúnicas de bom gabarito, os Espíritos elevados só entram em contato visível com as entidades nos planos inferiores, quando, por sua própria deliberação, envolvem o seu perispírito com os fluidos grosseiros do ambiente onde pretendem atuar. Um “pai de segredo”, portanto, é o Espírito superior que, sob um devotamento incomum, consegue fazer-se materializado nos planos inferiores, através do seus perispírito sob a aderência de fluidos do próprio meio. Trecho extraído da obra “Libertação”, capítulo “Numa Cidade Estranha”, do Espírito de André Luiz, por Chico Xavier: “Nossas organizações perispiríticas, à maneira de escafandro estruturado em material absorvente, por ato deliberado de nossa vontade, não devem reagir contra as baixas vibrações deste plano. Estamos na posição de homens que, por amor, descessem a operar num imenso lago de Iodo; para socorrer eficientemente os que se adaptaram a ele, são compelidos a cobrir-se com as substâncias do charco, sofrendo-lhes com paciência e coragem a influenciação deprimente”). Edição da Livraria Espírita Brasileira)

RAMATÍS: Conforme explicara Helena Blavatsky e é crença de todos os teosofistas, eram “cascões” com certa inteligência instintiva herdada após a morte dos seus donos, que se comunicavam nas sessões mediúnicas, em vez de Espíritos desencarnados conforme preceitua o Espiritismo. No entanto, o próprio Olcoot, um dos mais íntimos de Blavatsky, mais tarde admitiu que ela havia se equivocado.

Mas no caso dos Espíritos de luz, que usam “cascões” para se comunicarem nos trabalhos de Terreiros de Umbanda o acontecimento nada tem a ver com a teoria da Sociedade Teosófica esposada por Madame Blavatsky e bastante ingênua.

Desnecessário voz dizer que o instrumento mais poderoso e eficiente do Espírito imortal é a Mente. Nada se faz ou se cria antes de o Espírito operar no plano mental e ajustar-se à energia necessária para lograr o seu empreendimento no campo físico. O poder mental cria e destrói, redime ou infelicita; tanto pode ser exercido para o bem como para o mal! Os mundos físicos, na realidade, são os produtos materializados daquilo que Deus pensou em sua Mente Divina! Igualmente, o homem também é o produto de sua atividade mental, pois é o resultado exato do que pensou e praticou!

Assim, os Espíritos de elevada categoria espiritual, poderosos no usufruto do seu poder mental, conseguem mentalizar suas antigas formas perispirituais de índios, pretos, caboclos e demais configurações primárias já vividas no passado. Então eles adaptam-se às características peculiares das falanges de Umbanda, aceitando o sacrifício de envergarem as indumentárias grosseiras e primitivas, a fim de enfraquecerem as atividades dos magos negros.

Os médiuns, cambonos e demais íntimos dos Terreiros passam a conhecer esses Espíritos superiores travestidos em “cascões” ou formas primárias, como “pais de segredo” ou “pais de mironga”.

N. do Médium: Em visita a conhecido Terreiro de Curitiba e atendendo a fraternal convite em noite de homenagem ao Cristo-Jesus, fui surpreendido pela vidência, quando o conhecido índio Jupará modificou-se para a figura de abalizado Espírito familiar aos nossos trabalhos de mesa, acenando-me com travesso sorriso nos lábios. Aliás, foi assim que também descobri o segredo do caboclo Nho Quim, quando após um trabalho no gênero, ele desapareceu na sua figura sertaneja e surgiu como o iniciado Fuh-Planuh, antigo sacerdote dos pagodes chineses. Fuh-Planuh viveu na Indochina e foi irmão da progenitora física de Ramatís

PERGUNTA: Devemos admitir que todos os índios, caboclos e pretos velhos, participantes da Umbanda, são entidades de luz?

RAMATÍS: As legiões e falanges de Umbanda são constituídas de índios, caboclos, pretos-velhos e negros africanos, sob o comando de pajés, caciques, babalaôs, chefes e “pais de segredo”, sendo, estes últimos, minorias. Os demais são Espíritos primitivos, desconfiados, agressivos e mesmo vingativos, caso os encarnados abusem de sua ingenuidade ou submissão. Lembram as próprias forças agrestes da Natureza, que tanto destroem, como produzem toda sorte de benefícios. Em geral, os pretos-velhos, as mães pretas, tiazinhas e vovozinhas, são afáveis, compreensíveis e serviçais, prestando bons serviços aos filhos de Terreiros, como já faziam na Terra, quando eram escravos dos brancos!

PERGUNTA: Cremos que os “pais de segredo”, devido à sua condição espiritual superior, devem ser incondicionalmente tolerantes e amorosos. Não é assim?

RAMATÍS: Há casos em que o “pai de segredo” é mais severo do que o próprio preto-velho original da África, ou antigo escravo, no Brasil. Isso é evidente, porque as falanges e legiões de Umbanda só prestam submissão e obediência aos chefes que se mostram à altura dos acontecimentos mais graves. No mundo espiritual não grassa a desordem que há nos agrupamentos de encarnados, porque os Espíritos angélicos que os dirigem, embora bondosos e compreensíveis, também providenciam o corretivo necessário para restabelecer a harmonia perturbada,

(A propósito de tal consideração de Ramatís, o capitulo “Problema de Alimentação”, da obra “Nosso Lar”, ditada pelo Espírito de André Luiz a Chico Xavier, é excelente corroboração de que a energia corretiva não é dispensada pelos Espíritos superiores. Diz um trecho, pág. 46, 1ª edição da obra: “Mandou fechar (o governador de Nosso Lar) provisoriamente o Ministério da Comunicação, determinou funcionassem todos os calabouços da Regeneração, para isolamento dos recalcitrantes, advertiu o Ministério do Esclarecimento, cujas impertinências suportou mais de trinta anos consecutivos, proibiu temporariamente os auxílios às regiões inferiores, e pela primeira vez, na sua administração, mandou ligar as baterias elétricas das muralhas da cidade, para emissão de dardos magnéticos a serviço da defesa comum”).

Não há Espírito de Luz mais refulgente, Sábio, Justo, Poderoso e Magnânimo do que o próprio Criador! No entanto, apesar de sermos seus filhos amados, nem por isso Ele nos livra da dor e das vicissitudes humanas e corretivos cármicos, quando optamos por caminhos obscuros ou objetivos nefastos.

PERGUNTA: De que modo os umbandistas podem distinguir os “pais de segredo” dos verdadeiros índios, caboclos, pretos-velhos e negros africanos?

RAMATÍS: Os Espíritos primitivos comandados pelos “pais de segredo” não têm capacidade e discernimento suficientes para aferirem a graduação espiritual dos “pais de segredo”, assim como os homens insensíveis só puderam avaliar a sublimidade de Jesus depois de sua morte sacrificial. O “pai de segredo”, também é um chefe enérgico e poderoso, que comanda as suas falanges sem hesitações; e em certas circunstâncias, ele desaparece de um momento para outro, sob o espanto e temor dos seus dirigidos. Assim como um homem versado em latim e familiarizado com os costumes dos conventos, consegue passar por frade entre os verdadeiros frades, o “pai de segredo” não desperta suspeitas, porque é Espírito perfeitamente adestrado em todas as artimanhas dos filiados de Umbanda. Há Espíritos superiores tão abnegados, esclarecidos e hábeis, que conseguem interferir nas próprias linhas de Quimbanda sem despertar qualquer suspeita.

Os cavalos, cambonos ou umbandistas iniciados na simbologia dos pontos cantados ou riscados, sabem distinguir perfeitamente quando é um “pai de segredo” que se manifesta no Terreiro, em vez de Espírito primário e participante autêntico das falanges da Lei de Umbanda. Há convenções, sinais e símbolos nos seus pontos cantados e riscados, que identificam perfeitamente a condição de “pai de segredo” operando junto aos homens.

PERGUNTA: No caso desses “pais de segredo” interferirem também entre as falanges da Quimbanda, não implica em aderirem à magia negra?

RAMATÍS: Assim como respeitar-se o direito do próximo dizer o que pensa não é aderir às suas idéias, os Espíritos sublimes travestidos em “cascões” de índios, caboclos ou pretos podem tolerar a prática do mal sem transigirem com tal pecado! No entanto, sem pactuar com a magia negra, esses “pais de segredo” operam entre os quimbandeiros amortecendo o processo maléfico e induzindo Espíritos pecaminosos a inverterem sua ação maligna. Ademais, alguns antigos chefes e sacerdotes negros também fazem a sua passagem para a Umbanda, sob a doutrinação paciente e amorosa dos “pais de segredo”, onde assumem novos deveres e o compromisso de servirem as falanges do Cordeiro. Mas é evidente que eles ainda continuam a manter estreitos laços de amizade entre os antigos companheiros; e, por isso, são aproveitados habilmente como verdadeiras pontes de ligação para a mais breve conversão dos mesmos.

Apesar de alguns “pais de segredo” verem-se obrigados a tolerar certos trabalhos de malefício, a fim de não traírem sua identidade sideral, nem interferirem frontalmente de modo a despertar suspeitas, eles agem cautelosamente desmembrando agrupamentos malignos e convertendo falanges primitivas ao serviço exclusivo do bem, como fazem na Terra certas autoridades, juntando-se aos delinqüentes, para aliciá-las à coletividade benfeitora! Como não há privilégio na ascensão espiritual, os “pais de segredo” de hoje foram os fabulosos magos negros do passado; porém, agora já desfrutam a ventura de palmilhar a senda crística da consciência divina! Em conseqüência, eles apenas realizam as tarefas de que também foram alvos, no passado, quando outros seres resplandecentes desceram de suas moradias paradisíacas a fim de convertê-los à égide do Cristo!...

PERGUNTA: Poderíeis dar-nos algum “ponto cantado”, que identifique a linhagem dos “pais de segredo”?

RAMATÍS: Apenas para atendermos ao vosso pedido, vamos alinhar alguns “pontos cantados”, que denunciam a linhagem superior de entidade comunicante, através de símbolos ou indícios entendíveis pelos umbandistas estudiosos.

N.. Ele Edson Guiraud: Afora dos “pontos cantados” que mencionam o Chefe de falange, há inúmeros outros pontos que são tirados conforme a tarefa em execução. Assim, há ponto de defumação, ponto de descarga, ponto de defesa ou de pôr fogo na fundanga, a pólvora. Contudo, convém frisar que não basta somente o “ponto cantado”, mesmo em coerência com o “ponto traçado” para a perfeita identificação do “pai de segredo”, pois dentro de um ambiente em que se lida com vibrações tão variáveis, complexas e mentais heterogêneas, tanto entre encarnados como desencarnados, muitos lobos podem vestir-se de cordeiros.

Mencionamos, primeiramente, o seguinte “ponto cantado”:

De quando em quando,

Quando eu venho da Aruanda,

Trazendo pemba,

Pra salvar Filhos da Fé!...

Neste ponto e nos demais que analisaremos, encontram-se palavras convencionais que definem as características e os objetivos das falanges que representam, inclusive identificando a linhagem dos chefes ou pais que as governam. A primeira estrofe “quando eu venho da Aruanda”, induz que o chefe da falange é “pai de segredo”, pois vem do Céu ou da Aruanda, “trazendo pemba”, ou giz, isto é, autorizado a escrever, salvar e alforriar os filhos da fé, ou filhos de Terreiros, já disciplinados sob os ditames do bem ministrado pelas regras de Umbanda. Está claramente definido que o chefe vem “de quando em quando da Aruanda”, lugar onde ele habita, para participar das falanges na condição de “pai de segredo”!

“Na minha aldeia,

Lá na Jurema,

Não se faz nada,

Sem a Lei Suprema”!

O segundo ponto evidencia a finalidade da falange no serviço incondicional do bem, que se explica obviamente nas duas últimas estrofes, “não se faz nada sem a Lei Suprema”. Embora o chefe seja índio, caboclo ou preto-velho, esse “ponto cantado” identifica a condição espiritual muito superior, pois não fará nada que contrarie os princípios evolutivos da Lei Suprema de Deus! Ademais, a estrofe “lá na Jurema” assinala tratar-se de tribo ou falange de índios do litoral habituada ao tratamento de males corno a lepra, feridas e chagas, com a aplicação da folha da jurema, conhecida cientificamente por “Mimosa verrucosa”, cujas cascas são amargas, adstringentes e de aplicação narcótica, aliviando as dores fortes.

“Apanha laranja do chão,

Quem quiser...

Come maná lá no céu,

Quem puder!”

O terceiro “ponto cantado” manifesta-se sob um admirável e atraente aforismo, capaz de oferecer algumas proveitosas ilações filosóficas a respeito do Espírito. A laranja simboliza o fruto da terra, que nasce, cresce e morre, assim corno as ilusões do mundo material! Ademais, o ponto alude aos que passam pela carne em existência. fácil, as coisas à mão, adquiridas sem grande esforço, pois as primeiras estrofes são nítidas a respeito: “Apanha laranja do chão, quem quiser.” A laranja já caiu, é fácil apanhá-la, sem o esforço, sequer, de arrancá-la da árvore; está à mercê do primeiro que chegar! É o símbolo da sorte ou da facilidade para as criaturas que já gozam de todas as satisfações e conforto do mundo; mas é um bem provisório que “apanha quem quiser”. No entanto, “Come maná lá no céu, quem puder”, expressa a perfeita antítese de “apanhar laranja do chão”, pois é o bem eterno, .conforme se deduz da vida espiritual! “Quem puder” libertar-se do mundo material e governar o seu Espírito, também fará jus ao alimento superior, que é “o maná do céu”, o qual Deus mandou em forma de chuva aos israelitas, no deserto, quando estavam esfomeados. É o perfeito simbolismo de duas formas de nutrição: a do corpo e a do Espírito!

Ademais, ainda no seu sentido iniciático, o cântico revela uma falange de doutrinação, com o objetivo de esclarecer os filhos para se libertarem dos frutos perecíveis da terra e buscarem, tanto quanto possível, as dádivas do Céu! É um convite do Senhor descido do Paraíso, conclamando os filhos à luta, renúncia e realização, implícitas sibilinamente no “quem puder”, em vez do comodismo, ociosidade e extravagâncias do “quem quiser”! É falange perfeitamente identificada entre os “comandos eletivos” do Espaço, que operam sob a égide do conceito crístico, “muitos .os chamados, poucos os escolhidos”! Obviamente, o chefe é um “pai de segredo” de alta estirpe espiritual, pois nenhum bugre, caboclo ou preto autênticos, possuem capacidade para ministrar lição tão relevante!

I

“Na sua Aldeia tem

Os seus caboclos

Na sua mata tem

A cachoeira!

II

No seu saiote tem

Pena dourada,

Seu capacete brilha

Na Alvorada!”

O quarto ponto cantado, acima, expõe em suas estrofes a linhagem elevadíssima do “pai de segredo”, que dirige a falange. Ali se percebe o seu poder fabuloso, a sua graduação mental avançada, o valoroso Espírito de luta inextinguível e dinamizado de modo incomum na causa do bem! Revela-se entidade que lidera agrupamento de Espíritos em sua moradia elevada, um mentor de alto plano celestial, pois esclarece o ponto: “Na sua Aldeia tem os seus caboclos”, ou seja, a aldeia desse “pai de segredo” é o mundo espiritual, onde ele vive, mora e tem os seus discípulos: “os seus caboclos”!

“Na sua mata tem a cachoeira”, isto é, a água límpida da vida eterna, no simbolismo do encachoeirado incessante, que mitiga a sede da alma e a batiza no banho lustral da redenção, conforme o próprio rito banto na admissão do médium neófito para receber o pai de santo!

Mas onde se percebe claramente o nível mental desse “pai de segredo” é na seguinte e pitoresca estrofe: “No seu saiote tem pena dourada”. O saiote, espécie de saia curta feita de tecido forte, .que as mulheres costumam usar por baixo de outras saias, indica que o chefe da falange possui por baixo do “cascão” ou da aparência de preto-velho, bugre ou caboclo, outra indumentária mais forte e duradoura, ou seja, a sua realidade espiritual! Ademais, a pena dourada sobre o saiote, conforme a cromosofia transcendental, significa a luz dourada de sua aura fluindo pelo perispírito, cujo matiz, formoso e brilhante, identifica extraordinária aquisição mental.

Aliás, a pena sempre significou um direito intelectual adquirido pelo ser; é o emblema de orientador ou criador no campo das letras ou das idéias! Mas os iniciados em Umbanda sabem que a pena e a cor dourada são o binômio identificador de um “mestre cármico”, isto é, entidade fulgurante descida do plano mental ou búdico, com poderes de interferir e modificar o próprio destino dos filhos, se assim julgar conveniente. É, na realidade, um autêntico “Senhor do Carma”, da velha tradição teosófica, cuja sabedoria imensurável o torna um incondicional procurador da Divindade entre as brumas tristes da vida carnal!

Finalmente, o seu “capacete”, revela entidade combativa, corajosa e heróica, de ânimo invencível; espécie de guerreiro medieval, isto é, cuja atividade criadora teve início há muitos milênios, a partir da idade média do planeta! O seu capacete de guerreiro benfeitor só brilha na Alvorada e não no Crepúsculo; refulge, pela madrugada, ao despontar da manhã, pois enquanto a “maioria da humanidade ainda dorme”, ele permanece ativo no combate iniciado há milênios, devotando-se à libertação dos Espíritos escravos da vida carnal ilusória! Sua tarefa é criadora, assim como a Alvorada significa o desabrochar da vida, o despertar da juventude, o início de uma nova Era!

Eis, pois, ligeira digressão sobre alguns “pontos cantados” cujo sentido espiritual nem todos os umbandistas estão adestrados para compreender. No entanto, apesar de sua louvável graduação espiritual superior, alguns desses “pais de segredo”, às vezes recorrem aos favores de alguns chefes da “esquerda”, nas regiões astralinas inóspitas, de quem são amigos e se valem nos momentos nevrálgicos de socorro espiritual urgente. Esses chefes amigos e quimbandeiros realizam a parte mais grosseira, violenta e repulsiva da luta contra adversários astuciosos e exercitados no mesmo gênero da magia negra, e que os “pais de segredo” evitam, justificando o velho axioma de que “O Anjo não luta com as mesmas armas do Diabo”! (29)

Nota do Médium: Durante dois anos freqüentamos trabalhos de fenômenos físicos, cujo médium era o médico Dr. C. M., e surpreendia-nos a vidência um longo cordão de selvagens tupis-guaranis, que cercava toda a residência, cujo chefe certa noite materializou-se fazendo-nos saudações afetivas e dando-se a conhecer como o cacique Bogotá. Doutra feita, convidados a comparecer aos trabalhos de desobsessão do Centro Espírita A. U., de Curitiba, chegamos a assustar-nos na entrada, com o Espírito de um avantajado índio Tupinambá, o dorso nu e carregado de penduricalhos de ossos, todo pintado de cores berrantes, com três penas vermelhas no cocar e munido de volumoso tacape, e que chefiava um grupo calculado de trinta silvícolas, postado em torno da casa. As entidades arruaceiras, cínicas e malfeitoras, que se aproximavam, a um breve sinal dado pelo chefe Tupinambá, eram escorraçadas a pontapés e a lanças de bambu com pontas de aço. Mas os Espíritos benfeitores, os enfermos e obsessores, que chegavam acompanhados, eram introduzidos sob amistosa saudação do gigantesco Tupinambá.

PERGUNTA: Gostaríamos de uma justificação mais concreta quanto a essa deliberação excêntrica de Espíritos elevados participarem das atividades da Umbanda sob o disfarce de “pais de segredo”, e até interferindo nas falanges malfeitoras.

RAMATÍS: É evidente que nós também já fomos entidades malfeitoras, e que através do sofrimento e das vicissitudes humanas, convertemo-nos ao labor das linhas do Cristo! Isso também há de acontecer às atuais falanges de quimbandeiros entregues ao serviço da magia negra, que no futuro descerão à Terra para a prática do bem. Porventura, Jesus não foi o Príncipe de Luz, que deixou o Paraíso para habitar a Terra, viver entre as falanges de criaturas pecadoras? Sem dúvida, manifesto na Terra como um homem simples, filho de um carpinteiro, também era um “pai de segredo”, um anjo disfarçado sob a vestimenta rude e compacta do ser humano, falando aos filhos do mundo numa linguagem compreensiva e objetiva.

Em vez de condenar os homens malfeitores ou atemorizá-los pela refulgência de sua luz sideral, o Amado Mestre preferiu habitar entre eles e fazê-los entender o convite para a sua própria Felicidade! Antes de impressioná-los por uma linguagem afetada ou científica, procurou ensiná-los através da singeleza das parábolas e de historietas simples, consolando-os pela força amorosa das bem-aventuranças do Sermão do Monte!

Certos de que só podemos modificar o próximo depois de conquistarmos sua amizade e confiança, muito antes de impormos as nossas virtudes, os “pais de segredo” logram afetos e simpatias incondicionais entre as falanges primitivas que participam ou comandam, para depois conduzi-Ias ao rumo de Jesus. Sem dúvida, é um esforço sacrificial incomum por parte desses iluminados Espíritos do Alto, que se obrigam a reduzir sua cota de luz formosa para situá-la nos contornos grosseiros do seu “cascão primário”. Advogados, engenheiros, médicos, sacerdotes, professores, magistrados, filósofos, cientistas, líderes e antigos instrutores espirituais comparecem junto dessas almas primárias, ajudando-as na sua ascese. Usam do mesmo linguajar e vivem os mesmos costumes primitivos dos companheiros, mas num treino hábil modificam-lhes o ritmo censurável condicionando-os para a vida superior!

Como “pais de segredo”, conhecem-lhes as manhas, as intenções diabólicas e os projetos vingativos, dissuadindo-os, cautelosamente, dos feitos malignos em troca de outros serviços benfeitores.

PERGUNTA: Alguns mentores espíritas acham absurdo essa infiltração de Espíritos de luz imiscuindo-se nas atividades negativas das falanges negras!

RAMATÍS: Porventura, os médiuns espíritas negam-se a dar passes nas prostitutas, socorrer os alcoólatras ou transviados, só porque são pecadores? Os protestantes, as freiras e os padres generosos assistem viciados, delinqüentes, maconheiros, aberrativos sexuais e outros infelizes, nivelando-se ao seu mundo torpe e perturbado, com o fito de ajudá-los na salvação da alma! Aliás, o próprio Jesus, não só baixou até junto dos homens terrenos, como ainda conviveu com publicanos, mulheres de má fama, pecadores malcriados e criaturas marginais, a fim de melhor conhecer-lhes os problemas aflitivos e censuráveis.

(Trecho Extraído do livro: “A Missão do Espiritismo” – pelo Espírito de Ramatis - Obra Psicografada por Hercílio Maes)

Na Umbanda Crística, sempre que as Falanges de Trabalhos Espirituais dos Exus e das Pombas-Gira estivem mediunizando, estará presente um Guia Espiritual da Linha Mestra ou Auxiliar de Trabalhos Espirituais.

(Trecho extraído do livro: “Umbanda – A Manifestação do Espírito para a Caridade” – autoria: Pai Juruá)


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