A UMBANDA É UMA RELIGIÃO NEO=PANTEÍSTA

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A Umbanda é profissão de fé, crística, baseada nas manifestações dos Espíritos utilizando a roupagem arquetípica fluídica regional de Caboclos da Mata, Pretos-Velhos, Crianças, Baianos, Caboclos Sertanejos, Caboclos D´agua, Ciganos, Curandeiros, Povos do Oriente, e Tarefeiros, na orientação dos mesmos nos trabalhos mediúnicos pró-caridade, dentro da ritualística denominada Umbanda; excluindo-se os mitos, os milagres, as superstições e o sobrenatural.

UMBANDA: UMA RELIGIÃO

Segundo o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda, “Religião é um sistema solidário de crenças e práticas relativas a coisas sagradas que unem em uma mesma comunidade moral todos os que a ela aderem”.

Com base nesse conceito, pode-se afirmar que a Umbanda é uma religião. A fusão positiva de algumas práticas de outros credos, filosofias e as diferenças de ritos nos Terreiros não invalidam tal classificação. Variações litúrgicas, magísticas e ritualísticas são passíveis de ocorrer não apenas em religiões tradicionais, como em todas aquelas que, por motivos diversos – invasão, evasão, idiossincrasia, guerra, etc. – tenham sofrido influência de terceiros.

Por isso, a doutrina umbandista se caracterizar pela infiltração positiva de outros costumes, pela falta de coesão e de origem única deve-se considerar universalista. É essencialmente brasileira. Teve contribuições positivas dos cultos afro-ameríndios, com doutrina e rituais absorvidos de outras fontes, aceitando tudo o que é bom e rejeitando tudo o que é mal; desenvolveu-se e consolidou-se num credo apropriado à evolução, temperamento, cultura e anseio do povo brasileiro. Não representa, portanto, um culto africano, como pretendem muitos, apesar de ter com alguns deles diversos pontos positivos de contato. Ressente-se ainda de uma uniformidade doutrinária e de uma ritualística padronizada.

Tende, porém com o tempo, à uniformização, tornando-se homogênea, com uma base única, assim que forem corrigidas as discrepâncias que permanecem em conseqüência de equivocadas ritualísticas/doutrinas herdadas pelas idiossincrasias. É preciso, todavia, tolerância e compreensão, visto ser uma religião muito nova, não totalmente firmada em seus postulados.

Esses tropeços, que não permitiram sua consolidação, são facilmente explicáveis. A maior parte das religiões possui um fundador, um avatar, um messias, elaborador da doutrina, que a ensinou e a difundiu. Mesmo aqueles que transmitiram-na apenas oralmente, tiveram seguidores que se preocuparam em transcrevê-la para que ficasse sedimentada e perpetuada, sem perigo de deturpação.

Remontando às primeiras épocas, encontram-se os Vedas, onde ficaram registradas as leis que regem a pluralidade das existências e dos mundos e a comunicação com os mortos. Através do Bardo Thodol, livro que enfeixa a sabedoria do Tibet, se obteve o conhecimento da Lei do Carma. No Zenda Avesta, foram fixados os ensinamentos de Zoroastro, transmitidos ao povo da Pérsia.

No Torá, foram consolidadas as leis hebraicas. Nos Evangelhos, ficaram imortalizadas as palavras e lições ministradas por Jesus. Maomé deixa impresso no Alcorão as crenças e doutrina a ele comunicada por Entidades Celestiais. O esclarecimento dos mistérios que envolviam o intercâmbio com o Além, com base nas verdades pregadas por Jesus, foi enviado por Espíritos Superiores a Kardec, que o enfeixou numa série de livros. Nasceu, assim, o Espiritismo.

A Umbanda, todavia, não teve um messias (ela teve um instituidor) e ressente-se de um reformador que a resuma e lhe unifique o ritual e a doutrina, a fim de possibilitar uma estruturação única. Isto, porém, virá oportunamente, através de empenho pessoal, da luta, do uso da razão e da fé de algum umbandista iluminado.

Talvez seja essa a diretriz seguida pelo Alto para ensinar o homem atual. Fazê-lo atingir o conhecimento da verdade, por si mesmo, por intermédio do raciocínio, ao invés de submeter uma Entidade Angelical ao supremo sacrifício de descer ao Plano Físico para elucidá-lo. As bases primordiais das Normas Divinas foram fartamente explicadas pelos Avatares das diversas religiões, o ser humano está capacitado a dispô-las da mesma maneira que melhor atendam à sua concepção.

A alta Hierarquia Espiritual, reconhecendo que a humanidade, no estágio evolutivo em que se encontra, está preparada para servir-se de razão com discernimento, e valer-se da intuição mais burilada, faculta ao homem usá-las com objetividade. É um método didático de permitir que o indivíduo cresça e se aprimore por esforço próprio.

Na elaboração da Doutrina Espírita já se nota a tendência de não impor a verdade, mas deixar que ela seja procurada e achada. O Espiritismo não surgiu de uma fonte única ou de dogmas, mas foi produto de informações e esclarecimentos prestados por diversas entidades, enviados a todos os quadrantes do mundo, fornecidos a inúmeros médiuns e, finalmente, convergindo para um ponto.

Foi preciso um esforço imenso e grande trabalho sacrificial para separar a realidade da fantasia. De mensagens propositadamente falsas, transmitidas por Espíritos inferiores, deduziu-se o modo de vida desses seres e a razão de ocorrências desse tipo.

De informações fragmentadas e escritas em idiomas diferentes, formulou-se uma doutrina única, real e verdadeira, somente exequível por existir um raciocínio lógico, objetividade, dedicação, sensatez e intuição de uma mente superior como a de Kardec.

Pelo imenso número de adeptos que a Umbanda possui, não é difícil surgir em seu meio alguém portador das qualidades necessárias para estruturá-la e fazer com que todas as casas de culto se unam sob o mesmo código.

Como nada sucede na Terra que não seja programado pelo Alto, presume-se que as Entidades Celestiais que supervisionam as religiões e especificamente as que amparam a Umbanda estejam esperando que ela amadureça um pouco mais para providenciarem a vinda de uma pessoa habilitada a reformá-la.

Quanto mais o homem progride na mente, no coração e na intuição, mais os mestres podem levantar o véu que encobre a realidade única.

(Trecho extraído do livro: “O Ritual da Umbanda – Vera Braga de Souza Gomes – Ediouro”, com adaptações do autor)

Como muitos tacham a Umbanda de seita numa alusão pejorativa, vamos entender o que realmente significa esse termo e não mais nos aborrecermos quando ouvimo-lo:

Seita:

1º) Do latim secta = “seguidor”, proveniente de “sequi” = “seguir”. É um conceito utilizado para designar, em princípio, simplesmente qualquer doutrina, ideologia ou sistema que divirja da correspondente doutrina ou sistema dominante, bem como também para designar o próprio conjunto de pessoas (o grupo organizado ou movimento aderente a tal doutrina, ideologia ou sistema), os quais, conquanto divergentes da opinião geral, apresentam significância social. Usualmente conecta-se o termo à sua significação específica (stricto sensu) apenas religiosa, com o que por “seita” entende-se, a priori e de ordinário, imediatamente “seita religiosa”. Porém, tal nexo causal não é imperativo, pois nem sempre uma seita está no domínio religioso. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Seita)

2º) Doutrina religiosa ou ideológica que se afasta de outra; conjunto de crentes de uma doutrina que diverge da geral; partido; grupo de pessoas que seguem determinados princípios ou doutrinas, diversas dos geralmente aceitos no respectivo meio; teoria de algum professor célebre, seguida por muitos. (pt.wiktionary.org/wiki/seita)

DEFINIÇÕES E CLASSIFICAÇÕES DA RELIGIÃO

Religião é um sistema qualquer de idéias, de fé e de culto, como é o caso da fé cristã.

Interpretação da religião: É o conjunto de pensamentos, atos e sentimentos que estabelecem a relação entre o homem e Deus. Doutrina ou sistema de princípios que regula a subordinação da criatura ao Criador.

  • Religião (do latim: “religio” usado na Vulgata (Vulgata é a forma latina abreviada de ”vulgata editio” ou “vulgata versio” ou “vulgata lectio”, respectivamente, edição, tradução ou leitura de divulgação popular – a versão mais difundida (ou mais aceita como autêntica) de um texto), que significa “prestar culto a uma divindade”, “ligar novamente”, ou simplesmente “religar”); é um conjunto de crenças sobre as causas, natureza e finalidade da vida e do universo, especialmente quando considerada como a criação de um agente sobrenatural, ou a relação dos seres humanos ao que eles consideram como santo, sagrado, espiritual ou divino.

  • Religare: estar ligado, unir, atar;
  • Relígio: dúvida, escrúpulo e mais tarde cerimônia de culto;
  • Relegere: escolher cuidadosamente.

  • Religião é um conjunto de crenças e práticas organizadas, formando algum sistema privado ou coletivo, mediante o qual uma pessoa ou um grupo de pessoas é influenciado.
  • Religião é um corpo autorizado de comungantes que se reúnem periodicamente para prestar culto a um deus, aceitando um conjunto de doutrinas que oferece algum meio de relacionar o indivíduo àquilo que é considerado ser a natureza última da realidade.
  • Religião é qualquer coisa que ocupa o tempo e as devoções de alguém. Há, nessa definição, um quê de verdade, já que aquilo que ocupa o tempo de uma pessoa é geralmente algo a que ela se devota, mesmo que não envolva diretamente a afirmação da existência de algum ser supremo ou seres superiores. E a devoção encontra-se na raiz de toda religião.
  • Religião é o reconhecimento da existência de algum poder superior, invisível; é uma atitude de reverente dependência a esse poder na conduta da vida; e manifesta-se por meio de atos especiais, como ritos, orações, atos de misericórdia, etc.

Finalidade da religião: A finalidade da religião é conduzir o homem a Deus. Mas o homem não chega a Deus enquanto não se fizer perfeito. Toda religião, portanto, que não melhora o homem, não atinge a sua finalidade. Aquela em que ele pensa poder apoiar-se para fazer o mal é falsa ou foi falseada no seu início. Esse é o resultado a que chegam todas aquelas em que a forma supera o fundo. A crença na eficácia dos símbolos exteriores é nula, quando não impede os assassinos, os adúlteros, as espoliações, as calúnias e a prática do mal ao próximo, seja qual for. Ela faz supersticiosos, hipócritas, fanáticos, mas não homens de bem”. (“o Evangelho na Umbanda” – Jota Alves de Oliveira)

A partir destas tentativas de definição, podemos nos atrever a classificar as religiões em tipos de acordo com a similaridade de suas crenças.

Especialistas no assunto destacam pelo menos nove classes de religiões. Mas, como o leitor perceberá, há casos em que a distinção é mantida por uma linha muito tênue, o que faz que surja certa mistura de conceitos (tipos) em uma única religião.

De fato, os tipos de religiões mesclam-se em qualquer fé que queiramos considerar, e, geralmente, as religiões progridem de um tipo a outro ao longo de sua trajetória.

Assim, os vários tipos de religiões alistados a seguir não são necessariamente contraditórios ou excludentes entre si. Acompanhe: 

1) Religiões animistas: Sistemas de crenças em que entidades naturais e objetos inanimados são tidos como dotados de um princípio vital impessoal ou uma força sobrenatural que lhes confere vida e atividade. 

2) Religiões naturais: Pregam a manifestação de Deus na natureza, e, geralmente, rejeitam a revelação divina e os livros sagrados. Segundo seu pensamento, toda e qualquer revelação à parte da natureza não é digna de confiança.

3) Religiões ritualistas: Enfatizam as cerimônias e os rituais por acreditar que estes agradariam as divindades. Tais ritos e encantamentos teriam o poder de controlar os Espíritos, levando-os a atuar para o bem ou mal das pessoas.

4) Religiões místicas: São também revelatórias, porém, seus adeptos acreditam na necessidade de contínuas experiências místicas como meio de informação e crescimento espiritual. Os místicos regem sua fé pela constante e diligente busca da iluminação.   

5) Religiões revelatórias: Na verdade, seriam uma espécie de subcategoria das religiões místicas. Este grupo de religiões fundamenta-se nas supostas revelações da parte de deuses, de Deus, do Espírito, ou de Espíritos desencarnados que compartilham mistérios que acabam cristalizados em livros sagrados.

6) Religiões sacramentalistas: São grupos que têm nos sacramentos meios de transmissão da graça divina e da atuação do Espírito de Deus. Estas religiões, geralmente, acreditam que o uso dos sacramentos por meio de pessoas “desqualificadas” impede a atuação do Espírito de Deus. Os sacramentos constituem-se em veículo para promoção do exclusivismo. 7) Religiões legalistas: São construídas sob preceitos normativos, algum código legal que deve governar todos os aspectos da vida de um indivíduo. Este código é usualmente concebido como divinamente inspirado. O bem é prometido aos obedientes e a punição aos desobedientes.

8) Religiões racionais: Neste grupo, a razão recebe ênfase proeminente e a filosofia é supervalorizada. A razão, segundo acreditam, seria algo tão poderoso que nada mais se faria necessário além de seu cultivo bem treinado e disciplinado.

9) Religiões sacrificiais: Pregam a salvação por meio de sacrifícios apropriados. O cristianismo é uma religião sacrificial, no sentido de que Jesus Cristo é reputado como o autor do sacrifício supremo necessário à salvação. A suprema palavra do Senhor declara: “E quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9.22).

Todos estes princípios de crenças sustentam, cada qual à sua maneira, a religiosidade do mundo em que vivemos. Não foram poucas as declarações de filósofos e intelectuais que vislumbraram o desaparecimento destes sistemas. Mas eis que a religião ainda persiste, manifestando-se de diversas formas, em todos os lugares e coisas, em pleno século XXI, tão forte e influente quanto a mais recente descoberta científica. Por quê? Porque o homem não vive só de pão, mas também de religião.

É justamente ela (a religião) quem se candidata a responder ao “drama da alma humana”, o traço magno de todo interesse espiritual. Um mundo caído sem religião não é concebível.

Em sua famosa canção, “Imagine”, o célebre cantor e compositor John Lennon nos convida a imaginar um mundo ideal, sem coisas ruins (entre as quais ele destaca as religiões), propõe um mundo em que as pessoas pudessem viver em paz e sugere a religião como fonte incentivadora das guerras.

Em verdade, não há como negar que o abuso das atitudes religiosas produziu sangrentas guerras entre nós. Entretanto, temos de ponderar que as guerras não nasceram das convicções religiosas, mas, sim, do comportamento errado diante delas, o que é diferente. Se os homens são tão ímpios com religião, o que seriam sem ela? Não é possível desfazer-se das religiões simplesmente tentando ignorá-las.

(www.icp.com.br – com adaptações do autor)

E qual tipo de religião a Umbanda pertence? Encontramos um artigo que coaduna com o nosso pensamento:

UMBANDA – UMA RELIGIÃO UNIVERSAL

É lugar comum encontrar vários textos que se referem a Umbanda, a confinante classificação de “religião cultural”. Sinto pelos que concordam, mas me debato fervorosamente a esta idéia. É certo que pertenço a uma “nova geração” de umbandistas. Não tenho raízes apontadamente africanas, nunca freqüentei um Terreiro de “chão de barro” e desde que me lembro, sempre ouvi explicações, senão científicas, ao menos lógicas para todo e qualquer fenômeno ocorrido dentro de uma Sessão de Umbanda. Dentro da irmandade espiritual a que pertenço, temos pessoas de todas as classes, níveis culturais e correntes intelectuais. Médicos, jardineiros, professores, promotores de justiça, vendedores, engenheiros, donas de casa, diaristas, advogados, artistas, enfim, uma gama bastante variável em termos de cultura e origens as mais diversas. Então a conclusão me parece óbvia: A Umbanda não é uma religião cultural, porque não depende de uma determinada cultura apenas. Uma religião cultural é a religião que pertence especificamente a um grupo cultural, como podemos observar no bramanismo ou judaísmo. A Umbanda, não pode ser considerada uma religião deste gênero, porque é universal.

Eu explico: A Umbanda é uma religião essencial ao ser humano, enquanto consideramos a sua essência, não apenas a sua porção corpórea, mas também a sua causa psíquica e espiritual. Seus fundamentos, encontrados similarmente em diversas religiões, cultos e correntes filosóficas através do tempo e espaço humano, não pertencem à esquemática de um ciclo determinado da cultura humana, mas sim ao sistema do homem enquanto homem, por isso não pode ser limitada a uma cultura ou grupo social, mas sim encarada como um caminho da própria natureza do ser humano.

A Umbanda, mesmo que hoje isto já seja bastante óbvio, não pode ser considerada uma religião racial porque não depende de qualquer raça. E seria um erro julgar apenas que fosse uma manifestação amálgama, um estágio posterior ao encontro dos cultos africanos com a doutrina espírita européia, com influências sincréticas do cristianismo ou crenças indígenas nativas. Embora em sua forma atual perceba-se esta fusão de elementos culturais diferentes, alguns até antagônicos, conciliados em uma percepção global do Sagrado, absolutamente não é esta sua condição final. Nem tão pouco pode ser considerada uma religião de classes, porque embora determinadas classes em determinados contextos possam formar suas religiões e as têm formado ao longo dos anos, a Umbanda não pertence a nenhuma classe, ou casta, porque não depende delas para ser.

A Umbanda é uma religião da espécie humana, tomada em sua totalidade: corpo, mente e Espírito. Assim, mesmo formando-se e surgindo em uma determinada área racial e cultural, pertence a mais genérica parte do ser humano, o anseio do homem pelo sagrado. Porque a preocupação com o corpo, a mente e a alma humana independe, inclusive, do tempo, quanto mais da cultura, espaço ou classe social.

A Umbanda, apreendida através do contato com a espiritualidade superior, poderia surgir – se é que não o fez – em qualquer instante do tempo, não estando simplesmente determinada a condições históricas em que surgiu. Essas talvez, apenas facilitaram e facilitam sua atual percepção.

Poderia ter surgido antes, como poderia ter surgido depois, aqui ou ali em relação ao espaço geográfico. Por isso as suas possibilidades não dependem das condições culturais, porque pertencendo aos anseios inerentes ao homem enquanto homem se torna, então, universal.

(Marcelo – médium umbandista do Centro Espírita de Umbanda Xangô Caô do Oriente)

Chegamos a duas conclusões:

1ª) A Umbanda é uma religião, pois atende ao Evangelho: “A religião verdadeira é aquela que enternece os corações, fala às almas, orienta-as, infunde coragem e jamais atemoriza. Deve dar liberdade de fé e de raciocínio, pois “onde há liberdade, aí reina o Espírito do Senhor”. (Paulo, apóstolo, II aos Coríntios, 3:7).

2ª) Das classificações e definições de religiões, a Umbanda deve ser classificada como religião crística, devido a sua universalidade, pois é uma escola da alma, eclética, local de oração, de estudo dos ensinamentos divinos, de fraternidade, da comunhão entre as pessoas encarnadas e desencarnadas, de meditações, da prática da caridade, de boas leituras, boas músicas e boas canções.

A Umbanda é politeísta, monoteísta, panteísta, ateísta ou neo-panteísta?

TIPOS DE RELIGIÕES

Há várias formas de religião, e são muitos os modos que vários estudiosos utilizam para classificá-las. Porém há características comuns às religiões que aparecem com maior ou menor destaque em praticamente todas as divisões. A primeira destas características é cronológica, pois as formas religiosas predominantes evoluem através dos tempos nos sucessivos estágios culturais de qualquer sociedade.

Outro modo é classificá-las de acordo com sua solidez de princípios e sua profundidade filosófica, o que irá separá-las em religiões com e sem Livros Sagrados. Pessoalmente como um estudioso do assunto, prefiro uma classificação que leva em conta essas duas características, e divide as religiões nos seguintes 04 grandes grupos distintos: Panteísta – Monoteísta – Politeísta – Ateísta. Nessa divisão há uma ordem cronológica.

As Religiões Panteístas são as mais antigas, dominando em sociedades menores e mais “primitivas”. Tanto nos primórdios da civilização mesopotâmica, européia e asiática, quanto nas culturas das Américas, África e Oceania. As Religiões Politeístas por vezes se confundem com as Panteístas, mas surgem num estágio posterior do desenvolvimento de uma cultura.

Quanto mais a sociedade se torna complexa, mais o Panteísmo vai se tornando Politeísmo. Já as Monoteístas são mais recentes, e atualmente as mais disseminadas, o Monoteísmo quantitativamente ainda domina mais de metade da humanidade. E embora possa parecer estranho, existem religiões Ateístas, que negam a existência de um ser supremo central, embora possam admitir a existência de entidades espirituais diversas. Essas religiões geralmente surgem como uma reação a um sistema religioso Monoteísta ou pelo menos Politeísta, e em muitos aspectos se confunde com o Panteísmo embora possuam características exclusivas. Essa divisão também traça uma hierarquia de rebuscamento filosófico nas religiões. As Panteístas por serem as mais antigas, não têm Livros Sagrados ou qualquer estabelecimento mais sólido do que a tradição oral, embora na atualidade o renascimento panteísta esteja mudando isso.

Já as politeístas muitas vezes possuem registros de suas lendas e mitos em versão escrita, mas nenhuma possui uma Revelação propriamente dita. Isto é um privilégio do Monoteísmo. Todas as grandes religiões monoteístas possuem sua Revelação Divina em forma de Livro Sagrado. As Ateístas também possuem seus livros guias, mas por não acreditarem num Deus pessoal, não tem o peso dogmático de uma revelação divina, sendo vistas em geral como tratados filosóficos.

Vejamos alguns quadros comparativos.

  ÉPOCAS DE SURGIMENTO E PREDOMÍNIO
PANTEÍSMO As mais antigas, remontando a pré-história onde tinham predominância absoluta, e também presentes em muitos dos povos silvícolas das Américas, África e Oceania.
POLITEÍSMO Surgem num estágio posterior de desenvolvimento social, tendo sido predominantes na Idade Antiga em todo o velho mundo, e mesmo nas civilizações mais avançadas das Américas pré-colombianas.
MONOTEÍSMO Mais recentes, surgindo a partir do último milênio aC e predominando da Idade Média até a atualidade.
ATEÍSMO Surgem a partir do século V aC, tendo vingado somente no Oriente e no Ocidente ressurgindo somente após a renascença numa forma mais filosófica que religiosa.
NEO PANTEÍSMO Embora possuam representantes em todos os períodos históricos, popularizam-se ou surgem a partir do século XVIII.

 


BASE LITERÁRIA
PANTEÍSMO Próprias de culturas ágrafas, não possuem em geral qualquer forma de base escrita, sendo transmitidas por tradição oral.
POLITEÍSMO Nas sociedades letradas possuem frequentemente registros literários sobre seus mitos, e mesmo nas ágrafas possuem tradições icônicas mais elaboradas.
MONOTEÍSMO Possuem Livros Sagrados definidos e que padronizam as formas de crença, servindo como referência obrigatória e trazendo códigos de leis. São tidos como detentores de verdades absolutas.
ATEÍSMO Possuem textos básicos de conteúdo predominantemente filosófico, não possuindo, entretanto, força dogmática arbitrária ainda que sendo também revelados por sábios ou seres iluminados.
NEO PANTEÍSMO Seus textos são em geral filosóficos, embora possuam mais força doutrinária, não incorrendo, porém em dogmas arbitrários.

 


MITOLOGIA
PANTEÍSMO Deus é o próprio mundo, tudo está interligado num equilíbrio ecossistêmico e místico. Crê-se em Espíritos e geralmente em reencarnação, é comum também o culto aos antepassados. Procura-se manter a harmonia com a Natureza, e o mundo comumente é tido como eterno.
POLITEÍSMO Diversos deuses criaram, regem e destroem o mundo. Se relacionam de forma tensa com os seres humanos, não raro hostil. As lendas dos deuses se assemelham a dramas humanos, havendo contos dos mais diversos tipos.
MONOTEÍSMO Um Ser transcendente criou o mundo e o ser humano, há uma relação paternal entre criador e criaturas. Na maioria dos casos um semi-deus se rebela contra o criador trazendo males sobre todos os seres. Messias são enviados para conduzir os povos, profetiza-se um evento renovador violento no final dos tempos, onde a ordem será restaurada pela divindade.
ATEÍSMO O Universo é uma emanação de um princípio primordial “vazio”, um Não-Ser. Crê-se na possibilidade de evolução espiritual através de um trabalho íntimo, crê-se em diversos seres conscientes dos mais variados níveis, e geralmente em reencarnação.
NEO PANTEÍSMO Acredita-se em geral no Monismo, uma substância única que permeia todo o Universo num Ser único. São em geral reencarnacionistas e evolutivas. A desatribuição de qualidades do Ser supremo por vezes as confunde com o Ateísmo.

 


SÍMBOLOS
PANTEÍSMO Utilizam no máximo totens e alguns outros fetiches, é comum o uso de vegetais, ossos, ou animais vivos ou mortos.
POLITEÍSMO Surgem os ídolos zoo ou antropomórficos na forma de pinturas e esculturas em larga escala. A simbologia icônica se torna complexa em alguns casos resultando em formas de escrita ideográfica.
MONOTEÍSMO O Deus supremo geralmente não possui representação visual, mas os secundários sim. Utilizam símbolos mais abstratos e de significados complexos.
ATEÍSMO O Não-Ser supremo não pode ser representado, mas há muitas retratações dos seres iluminados. Há vários símbolos representativos da Natureza e metafísica do Universo.
NEO PANTEÍSMO Diversos símbolos e mitos de diversas outras religiões são resgatados e reinterpretados; também não há representação específica do Ser Supremo, mas pode haver de outros seres elevados.

 


RITUAIS
PANTEÍSMO Geralmente ligados à Natureza e ocorrendo em contato com esta. É comum o uso de infusões de ervas, danças, oráculos e cerimônias ao ar livre.
POLITEÍSMO Passam a surgir os templos, embora em geral não abandonem totalmente os rituais ao ar livre. Em muitos casos ocorrem os sacrifícios humanos, oráculos e as feitiçarias de controle ambiental.
MONOTEÍSMO Geralmente restritas aos templos, as hierarquias ritualistas são mais rígidas, não há oráculos pessoais, mas sim profecias generalizadas com base no Livro Sagrado. Não há rituais de controle ambiental.
ATEÍSMO Embora ainda comuns nos templos sejam também freqüentes fora destes. Desenvolvem-se técnicas de concentração, meditação e purificação mais específicas, baseadas antes de tudo no controle dos impulsos e emoções.
NEO PANTEÍSMO Em geral baseados no uso de “energias” da Natureza. Não mais têm influência nos processos civis, sendo restritos a curas, proteção contra ameaças físicas e extra físicas.

 


EXEMPLOS
PANTEÍSMO Religiões silvícolas, xamanismo, religiões célticas, druidismo, amazônicas, indígenas norte americanas, africanas, etc.
POLITEÍSMO Religião Grega, Egípcia, Xintoísmo, Mitologia Nórdica, Religião Azteca, Maia, etc.
MONOTEÍSMO Bhramanismo, Zoroastrismo, Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Sikhismo, Espiritismo.
ATEÍSMO

Orientais: Taoísmo, Confucionismo, Budismo, Jainismo.

Ocidentais: Filosofias Neo-Plantônicas, Ateísmo Filosófico (Não Religioso)
NEO PANTEÍSMO Umbanda, Racionalismo Cristão, Neo-Gnosticismo, Teosofia, Wicca, “Esotéricas”, etc.

 

PANTEÍSMO

As religiões primitivas são Panteístas; acredita-se num grande “Deus-Natureza”. Todos os elementos naturais são divinizados, se atribuí “inteligências” espirituais ao vento, a água, fogo, populações animais e etc. Há uma clara noção de equilíbrio ecossistêmico, onde é comum ritos de agradecimento pelas dádivas naturais e pedidos às divindades da Natureza, em alguns casos requisitando autorização mesmo para o consumo da caça que embora tenha sido obtida pelo esforço humano, seria na verdade permitida, se não ofertada, pelos entes espirituais.

A relação de dependência do ser humano com o ecossistema é clara, assim como a de parentesco e de submissão. As entidades elementais da Natureza estão presentes em toda a parte, conferindo a onisciência do Espírito divino.

Embora haja a tendência da predominância de uma presença mística feminina, a “Mãe-Terra”, o elemento masculino também é notável a partir do momento que os seres humanos passam a compreender o papel do macho na reprodução. Ocorre então à presença de dois elementos divinos básicos, o Feminino e Masculino universal.

É um domínio de pensamento transcendente, mais compatível com a subjetividade e a síntese, não sendo então casual que este seja o tipo religioso onde as mulheres mais tenham influência. A presença de sacerdotisas, bruxas e feiticeiras é em muitos casos, muito mais significativa que a de seus equivalentes masculinos.

Todas essas religiões são ágrafas, sem escrita, com exceção é claro dos Neo-Panteísmos contemporâneos. Portanto são as mais envoltas em obscuridade e mistérios, não tendo deixado nenhum registro além da tradição oral e de vestígios arqueológicos.

POLITEÍSMO

Com o tempo e o desenvolvimento as necessidades humanas passam a se tornar mais complexa. A sobrevivência assume contornos mais específicos, o crescimento populacional hipertrofiado graças à tecnologia que garante maior sucesso na preservação da prole e da longevidade, gera uma série de atividades competitivas e estruturalistas nas sociedades, que se tornam cada vez mais estratificadas.

Nesse meio tempo a influência racional em franca ascensão tenta decifrar as transcendentes essências espirituais da Natureza. Surge então o Politeísmo, onde os elementos divinos são então personificados com qualidades cada vez mais humanas. O que era antes apenas a água, um ser de essência espiritual metafísica e sagrada, agora passa a ser representada por uma entidade antropomórfica ou zoomórfica relacionada a água.

No princípio as características dessas divindades não são muito afetadas, mas com o tempo, a imaginação humana ou a tentativa de se adequar as religiões às estruturas sociais, elas ficam cada vez mais parecidas com os seres humanos comuns, surgindo então entre os deuses relacionamentos similares aos humanos inclusive com conflitos, ciúmes, traições, romances e etc.

E cada vez mais os deuses perdem características transcendentes até que a “degeneração” chegue a ponto destes se relacionarem sexualmente com seres humanos, o que significa a perda da natureza metafísica, da característica invisível, ou mais, de haver relações físicas e pessoais de violência entre humanos e divindades, sem qualquer caráter transcendente.

Em muitos casos é difícil distinguir com clareza se determinadas religiões são Pan ou Politeístas. Mesmo no estágio Panteísta por vezes pode-se identificar com muita evidência algumas personificações das entidades divinas, mas algumas características como as citadas no parágrafo anterior são exclusivas do politeísmo. É possível que os elementos que contribuam ou realizem essa transição sejam o Animismo, Fetichismo e Totemismo.

Ocorre também uma relativa equivalência entre deidades femininas e masculinas, embora as masculinas mostrem sinais de predominância à medida que o sistema de crenças se torne mais mundano, características de uma fase mais racional e técnica onde muitas vezes a religião politeísta caminha junto com filosofias da Natureza.É sempre nesse estágio também que as sociedades desenvolvem escrita, ou pelo menos passa a utilizar símbolos abstratos e códigos visuais mais elaborados, no caso do politeísmo asiático, egípcio e europeu, por exemplo, evoluiu para um sistema de escrita complexo.

Muitas destas religiões têm então, narrativas de seus mitos em forma escrita, mas tais não possuem o valor e a significância de uma Revelação propriamente dita.

Num estágio final tende a ocorrer o fenômeno da Monolatria, onde a adoração se concentra numa única divindade, o que pode ser o ponto de partida para o Monoteísmo.

MONOTEÍSMO

Chega um momento onde o Politeísmo está tão confuso, que parece forçar o “inconsciente coletivo”, ou a “intuição global” a buscar uma nova forma de crença. Alguém precisa pôr ordem na casa, surge então um poderoso Deus que acaba com a confusão e se proclama como o Único soberano.

Acabam-se as adorações isoladas e hierarquizam-se rigidamente as deidades, de modo a se submeter toda a autoridade do universo a um ente máximo.

O Monoteísmo não é a crença em uma única divindade, mas sim a soberania absoluta de uma. A própria teologia judaico/cristã/islâmica adota hierarquias angélicas que são inclusive encarregadas de reger elementos específicos da Natureza.

Um elemento que caracteriza mais claramente o Monoteísmo mais específico, Zoroastrista, Judaico, Cristão, Islâmico e Sikh, é antes de tudo a ausência ou escassez de representações icônicas do Deus supremo, e sua desatribuição parcial de qualidades humanas, nem sempre bem sucedidas. Já as entidades secundárias são comumente retratadas artisticamente.

A própria mitologia grega através da Monolatria, já estaria a dar sinais de se dirigir a um monoteísmo similar ao que chegou a religião Hindu, ou a egípcia com a instituição do deus único Akhenaton, embora ainda impregnadas fortemente de Politeísmo a até de reminiscências Panteístas no caso do Bhramanismo. Zeus assomava-se cada vez mais como o regente absoluto do universo.

Entretanto um certo obstáculo teológico impedia que tal mitologia atingisse um estágio sequer semi-Monoteísta. Zeus é filho de Chronos, neto de Urano, essa descendência evidencia sua natureza subordinada ao tempo, ele não é eterno ou sequer o princípio em si próprio, que é uma característica obrigatória de um Deus Uno e absoluto como Bhraman ou Jeová.

Um fator complicador é que todas essas religiões apesar de seu princípio Uno são também Dualistas, pois contrapõem um deus do Bem contra um do Mal. Entretanto não se presta “Sob hipótese alguma!”, qualquer Culto ao deus maligno, como ocorre nas Politeístas. Saber se o deus maligno está ou não sujeito afinal ao deus supremo é uma discussão que vem rendendo há mais de 3.000 anos.

Diferente do estado Panteísta original não ocorre harmonia entre os opostos, e um deles passa a ser privilegiado em detrimento do outro. Sendo assim onde antes ocorria a divinização dos aspectos masculinos e femininos do universo, e a sacralidade da união, aqui ocorre à associação de um com o maligno, fatalmente do elemento feminino uma vez que todas as religiões monoteístas surgiram na fase patriarcal da humanidade.

O Bhramanismo sendo o mais antigo, ainda conserva qualidades tais como veneração a manifestações femininas da divindade, não condena a relação sexual e ainda detém a crença reencarnacionista que é uma quase constante no Panteísmo. Do Politeísmo guarda toda uma miríade de deuses personificados, com estórias bastante humanas que envolvem conflitos e paixões.

Mas a subordinação a um Uno supremo, no caso representado pela trindade Bhrama/Vishnu/Shiva, é clara. O panteão anterior Hindu foi completamente absorvido pelo monoteísmo Bhraman, e conservou até mesmo a deusa Aditi, que outrora fora a divindade suprema.

Já os monoteísmos posteriores, mais afastados do fenômeno panteísta, entram em choque mais evidente com o Politeísmo que geralmente está em estado caótico. Ocorre um abafamento da religião anterior pela nova e seu caráter patriarcal e associado à violência, especialmente a partir do Judaísmo, se impõe de forma opressiva. As divindades femininas são erradicadas ou demonizadas, sendo então obrigatoriamente associadas ao elemento maligno do universo. Esse fenômeno acompanha a queda da condição social feminina na sociedade.

Embora as teologias monoteístas, especialmente na atualidade, se esforcem para afirmar o contrário, o deus único Hebreu, Cristão e Islâmico, basicamente o mesmo, assim como o do anterior Zoroastrismo e posterior Sikhismo, é nitidamente masculino, aparentemente renegando o aspecto feminino divino do universo, mas na verdade o absorvendo, uma vez que ao contrário de deuses “supremos” Politeístas como Zeus, Osíris e Odin, eles são carregados de atribuições de amor e compaixão, embora ainda conservem sua Ira divina e seus atributos violentos, o que resulta em entidades complexas, que possuem aspectos paternos e maternos simultaneamente.

Tal como a própria emocionalidade, esse é o período mais contraditório da evolução do pensamento Teológico. Apesar de estar sob o domínio de uma característica de predominância subjetiva, é o momento onde as sociedades se mostraram paradoxalmente mais androcráticas.

Os elementos femininos são absorvidos pelo Deus Único dando a ele o poder de atrair e seduzir as massas pela sua bondade, mostrando sua face benevolente, mas por outro lado a espada da masculinidade está sempre pronta a desferir o golpe fatal em quem se opuser a sua soberania.

Tal união confere aos deuses monoteístas um poder supremo inigualável, e tal contradição, tal desarmonia intrínseca, resultou não por acaso no período religiosamente mais violento da história. As religiões monoteístas, especialmente o trio Judaísmo/Cristianismo/Islamismo, são as mais intolerantes e sanguinárias da história.

ATEÍSMO

As religiões aqui caracterizadas como Ateístas negam simplesmente a existência de um Ser Supremo central, que tudo tenha criado e a tudo controle, e talvez seja nesse grupo que se sinta mais radicalmente a ruptura entre Ocidente e Oriente, mas basicamente o Ateísmo religioso tende a funcionar da seguinte forma:

Se o Monoteísmo tenta acabar com o “pandemonium” Politeísta e estabelecer uma nova ordem por algum tempo, acaba por também se mundanizar. As autoridades religiosas interferindo fortemente na política e na estruturação social enfraquecem como símbolos transcendentes. A inflexibilidade fundamentalista do sistema se revela injustificável ante a problemática social e as conquistas e descobertas filosóficas e científicas e num dado momento o sentimento de descrença é tal que deixa-se de acreditar num deus. Surge o Ateísmo.

Esse é o ponto crucial, a razão pela qual de fato não acredito que existam ateus no sentido mais profundo do termo, no máximo “agnósticos”.

Geralmente o ateu não é aquele que desacredita do “invisível”, de qualquer forma de Téos, mas sim o que descrê dos deuses personificados e corrompidos. Afinal até o mais materialista e cético dos cientistas trabalha com forças invisíveis! Fenômenos da Natureza ainda inexplicáveis. Gravitação Universal, Lei de Entropia, Mecânica Quântica e etc. não podem ser vistas! Apenas seus efeitos. Tal como sempre se alegou com relação aos deuses.

No que se refere a uma visão do Princípio, não creio fazer diferença acreditar que um corpo é atraído para o centro da Terra por uma força invisível da Natureza ou pela vontade de um deus também invisível. Há apenas uma maior compreensão racional do fenômeno, com maiores resultado práticos, mas de um modo ou de outro, a explicação possui um certo caráter de fé, tão racionalmente satisfatório para o cientista quanto para o religioso, capaz de explicar com clareza o funcionamento do mundo e mesmo quando isso não ocorre, admiti-se como mistérios divinos, ou causas científicas ainda desconhecidas.

No caso do Oriente, o Ateísmo religioso surge principalmente na Índia, sob a forma do Budismo e do Jainísmo, e na China, sob o Taoísmo e o Confucionismo.

Todas essas religiões possuem textos base com certo grau de respeitabilidade mística ou filosófica, mas o grau de liberdade com que se pode reinterpretar ou mesmo discordar destes textos é incomparável em relação aos livros sagrados Monoteístas.

E nesse nível que muitas posturas passam a ser desconsideradas como religiões, sendo tidas em geral como filosofias. No Ocidente, tal movimento ocorreu também na Grécia Antiga, através de Filósofos da Natureza que estabeleciam como princípio primário universal alguma “substância” completamente impessoal. Mais especificamente, Aristóteles colocava o Motor Imóvel como o princípio primário, e Plotino, estabelecia o Uno. Porém essa breve ascensão do Ateísmo filosófico e científico ocidental foi logo minada pelo sucesso do Monoteísmo cristão.

O Ateísmo no Ocidente só surgiu novamente após a renascença, no Iluminismo, onde outras formas filosóficas se desenvolveram, mas a mistura destas com os Neo Panteísmos e o avanço científico em geral resultam num quadro difícil de se diferenciar. Mas o ponto mais complexo na verdade, e que Ateísmo e Panteísmo se confundem.

Religiões Ateístas e Neo-Panteístas

As religiões Ateístas não crêem numa entidade suprema central, mas pregam a interdependência harmônica do Universo, da mesma forma que o Panteísmo. Pregam a harmonia dos opostos como Yin e Yang, da mesma forma que a harmonia entre a Deusa e o Deus no Panteísmo, e constantemente adotam uma posição de neutralidade em relação aos eventos.

Provavelmente não por acaso Taoísmo e Budismo são as mais avançadas das grandes religiões num sentido metafísico, racional e mesmo científicas. São imunes as contestações racionais, pois seus conceitos trabalham num plano mais abstrato, mas ao mesmo tempo capaz de explicar a realidade, e fartos de paradoxos escapistas, sendo extremamente mais flexíveis que as religiões monoteístas, por exemplo. Não há casos significativos de atrocidades cometidas em nome destas religiões em larga escala como as monoteístas ou nas politeístas monolátricas. Porém, barreiras intransponíveis impedem que essas religiões sejam nesse esquema de divisão, classificadas como Panteístas.

Taoísmo e Confucionismo que são chinesas enquanto o Budismo e o Jainismo Indianos são religiões letradas. Possuem seus escritos fundamentais como os Sutras Budistas, o Tao-Te-King Taoísta e os Anacletos Confucianos e os textos dos Tirthankaras Jainistas. Todas possuem seus mentores, Buda, Lao-Tsé, Confúcio e Mahavira.

E todas são muito desenvolvidas filosoficamente, por vezes sendo consideradas não religiões, mas filosofia. Todas essas características inexistem no Panteísmo primitivo. Portanto isso me leva a classificá-las como Religiões Ateístas, por declararem a inexistência de um Ser Supremo. Pelo contrário, o Tao ou o Nirvana, o centro de todo o Universo segundo o Taoísmo e Confucionismo, e o Budismo, são uma espécie de Vazio, um Não-Ser.

Já o Neo-Panteísmo possui sim seus textos. É o caso do Espiritismo, do Bahaísmo, do Racionalismo Cristão, etc. Embora muitos insistam em negarem-se como Panteístas se inclinando para o Monoteísmo, porém uma série de fatores a distanciam muito deste grupo. Tais como:

  • A ênfase atenuada dada ao livro base da doutrina, que embora seja uma revelação, não tem o mesmo peso dogmático e em geral se apresenta de forma predominantemente racional.
  • A postura passiva e não proselitista, e muito menos violenta, do Monoteísmo tradicional. A caracterização de seu fundador que mesmo sendo dotado de dons supranaturais, não reivindica deificação e nem mesmo reverência especial. E o mais importante, diferenciando-as principalmente do Monoteísmo “Ocidental”, o tratamento totalmente diferenciado dado à questão da existência do “Mal”. Esses são alguns exemplos que tendem a afastar essas novas religiões, que prefiro agrupar na categoria Neo-Panteísmo, do grupo das Monoteístas.

 

 PANTEÍSMO

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 Deus é Tudo

 POLITEÍSMO

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 Deus é Plural

 MONOTEÍSMO

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 Deus é Um

 ATEÍSMO

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 Deus é Nada

 

Evidentemente, afirmar que Deus é tudo é muito similar a afirmar que é nada. O zero é tão imensurável e incalculável quanto o infinito. Eles não podem ser medidos ou divididos, assim como não se divide por eles.

Vale lembrar que não se pode também rotular tal ou qual religião como meramente Pan, Poli ou Monoteísta. Muitas passaram pelas várias fases nem sempre de maneira perceptível e consensual. O próprio Budismo tem várias escolas bastante diferentes entre si, e mesmo o Cristianismo tem suas variantes com direito à reencarnação e sexo tântrico, e cujas atribuições de Deus o afastam das características monoteístas. Mas o processo macro, inconsciente, me parece ser esse! O de fases “psico-históricas” que vão à forma: Panteísmo/Politeísmo/Monoteísmo/Ateísmo/Neo-Panteísmo.

Outro ponto importante é que jamais uma dessas formas religiosas deixou de existir totalmente, principalmente na atualidade onde a intolerância religiosa não é mais “tolerada” na maior parte do mundo. Esses tipos de religiões se misturam e se confundem o que explica porque qualquer tentativa de se classificar as religiões é tão complexa. Até mesmo essa divisão esquemática apresenta problemas, como a notável diferença entre o Monoteísmo “Ocidental”, Judaísmo/Cristianismo/Islamismo, fortemente interligadas, o Monoteísmo Oriental, Hindu, Bhramanismo e Sikhismo, e o sempre complexo Zoroastrismo, de características fortemente Maniqueístas, o que viria por vezes a suscitar a questão de se o Maniqueísmo, que tem forte influência sobre o Gnosticismo e o Catolicismo, poderia ser considerado Monoteísta.

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(Texto de: Marcus Valério XR)

E a Umbanda?

Depois de tudo entendido, chegamos à conclusão que a Umbanda é Neo-Panteísta. Cremos na percepção da Natureza e do Universo, com a presença de Deus, sendo Ele a causa e o efeito de tudo o que existe.

Na Umbanda Neo-Panteísta, a idéia de um Deus que vive em tudo, complementa e coexiste com o conceito de Deus associado com os diversos elementos da Natureza, onde surge o que conhecemos como Orixás, que nada mais são que a presença do próprio Pai Eterno, através de Suas Hierarquias Superiores, os Poderes Reinantes do Divino Criador.

A principal convicção é que Deus, está presente no mundo e permeia tudo o que nele existe. O Divino também pode ser experimentado como algo impessoal, como a alma do mundo, ou um sistema do mundo.

Cremos que Deus está em tudo e em todos, mas não somente como o efeito (mundo material), mas principalmente a causa de tudo. Tudo está interligado num equilíbrio ecossistêmico e místico.

Cremos em Espíritos, em reencarnação, comunicação espiritual. Procuramos manter a harmonia com a Natureza.

A Umbanda é ligada a Natureza e ocorrendo em contato com esta, o uso de ervas em todas as suas formas é essencial ao nosso culto.

A Umbanda é crística, aceitando tudo o que é bom e rejeitando tudo o que é mal, e está ligada intimamente ligada às religiões, doutrinas e ritualísticas xamanistas, célticas, africanas, orientais, cristãs, etc.

(Trecho extraído do livro: “Umbanda – A Manifestação do Espírito para a Caridade” – 2º Módulo – autoria: Pai Juruá)

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